Tentação de simplificar
Martha Medeiros
A infidelidade já foi tema de vários filmes, mas é raro o cinema mostrar uma versão menos glamourosa da traição
Fui ver um filme que se chama originalmente We don’t live here anymore, cuja tradução deveria ser Nós não moramos mais aqui. No entanto, no Brasil o filme ganhou o deplorável título de Tentação, que além de sugerir um filme B, simplifica demais a história. Qual é a história? A de dois casais amigos, todos por volta dos 30 anos. Os homens correm juntos no final de semana, as mulheres saem juntas para fazer compras, e os quatro costumam se reunir em casa para ver filmes, preparar uma comida, se divertir. O inusual desta amizade é que um dos caras é amante da mulher do amigo, e o casal que sobra acaba também se sentindo atraído um pelo outro. Parece excitante, mas não é. O filme deixa explícito apenas a solidão, as incertezas, a dor. Tudo meio fóbico, mas sem jamais escorregar para a dramatização barata. Enfim, quatro adultos confusos e infelizes. Tentação? A única tentação foi a do tradutor em fazer com que o título em português sugerisse uma reles história sexual de troca de casais.
A infidelidade já foi tema de diversos filmes, e uma boa parte deles mostra dois momentos distintos deste comportamento: o primeiro é o do prazer de se estar vivendo uma relação clandestina baseada em sexo e paixão, sem os inconvenientes da rotina. É quando tudo parece um comercial de tevê: a música é vibrante, as transas são vibrantes, a vida é vibrante. Até que algo dá errado e então entram em cena o arrependimento, a violência, as rupturas, as lições de moral. Do paraíso ao inferno.
Tentação não transita de um ponto a outro. A felicidade não dá as caras em nenhum momento. As transas são válvulas de escape, mas ninguém sabe ao certo do que está querendo escapar. Não há primeiro o êxtase, depois a tristeza: a tristeza está sempre presente, deste o início. Camuflada, mas está lá.
Não sei se a intenção do diretor era mostrar o quanto o ser humano está deslocado nesta sociedade mais permissiva. Vai ver não é nada disso. De qualquer maneira, é raro o cinema mostrar uma versão menos glamourosa do que hoje parece tão comum, tão leve, tão incandescente, mas que acaba por gerar situações difíceis de lidar. Não considero o adultério o fim do mundo, mas também não é uma brincadeira. Não é um esporte. Não é uma bobagem.
Bobagem é chamar de Tentação um filme que pouco explora o sexo, e sim a necessidade de desejar, mesmo quando o desejo inexiste. É como se todas as pessoas, hoje, estivessem sendo empurradas para uma aventura só porque esta é a nova ordem mundial. We don’t live here anymore também não é um título perfeito, mas ao menos reflete a melancolia que permeia o filme inteiro. Condiz mais com o que é mostrado na tela. E na tela não há tentação. Há, no máximo, tentativas.
Domingo, 26 de junho de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.